ISTO TUDO!
flores de diligência e força
com raízes de tino,

Pedro da Silveira, Terceiro1Pedro da Silveira, Fui ao Mar Buscar Laranjas: Poesia Reunida, ed. Urbano Bettencourt, 1.a ed., Poesia 1 (Angra do Heroísmo, Terceira, Açores, Portugal: Instituto Açoriano de Cultura, 2019), … Continue reading

Local

Porta da Casa das Flores
Uma porta da Casa das Flores.

Calmos – A Caldeira do Mosteiro, ou simplesmente a Caldeira, é um lugar2Nos Açores não se usa a palavra «aldeia». Uma pequena povoação designa-se por lugar. da freguesia do Mosteiro, Concelho das Lajes das Flores, constituído por cerca de uma dezena de casas e por alguns palheiros. A Caldeira insere-se numa caldeira vulcânica3A palavra «caldeira» parece ter começado a usar-se para designar formações geológicas justamente na Macaronésia. Terá sido esta palavra a ser adoptada, mais tarde, como parte da terminologia … Continue reading que é conhecida localmente pelo mesmo nome. Mais precisamente, a Caldeira situa-se na parede exterior da caldeira vulcânica, no «baixio»4Um baixio é um pequeno vale de aluvião. que rasga esta parede para deixar passar a Ribeira da Caldeira. Esta ribeira, depois de engrossada por duas outras ribeiras que serpenteiam entre as casas da Caldeira, desce para o mar numa sucessão de pequenos pulos5Um pulo é uma cascata ou uma queda de água., passando pela pequena Fajã6Uma fajã é uma área plana de terreno resultante usualmente de um desabamento de terras ou quebrada. As fajãs estão usualmente junto ao mar, mas há fajãs de altitude. de Lagoarda. A Fajã de Lagoarda e a Quebrada7Uma quebrada é um desabamento de terra ou o seu resultado. da Muda, não muito distante, atestam a antiga e violenta abertura da caldeira ao mar e os desabamentos, em tempo geológico, ocorridos desde então.

Vista das Casas dos Figos Maduros, do Verde e da Gueixa
Uma vista das Casas dos Figos Maduros, do Verde e da Gueixa com a ribeira e os plátanos pelo meio.

A caldeira vulcânica, na qual se insere o lugar da Caldeira, situa-se entre os 230 metros, no ponto mais baixo do baixio da Caldeira, a ocidente, e os 375 a 435 metros de altitude, na sua orla oposta, a oriente. A caldeira vulcânica situa-se, por seu lado, na costa ocidental da Ilha das Flores, a Norte da sede da Freguesia do Mosteiro, onde se insere, e a Sul da extensa fajã que contém a Fajãzinha, a Cuada, a Fajã Grande e a Ponta, icónica pela sua grande e deslumbrante orografia e pela quantidade de cascatas que nela caem.

Janela da Casa da Ganhoa
Uma janela da Casa da Ganhoa.

A Caldeira foi abandonada em 1992, com a saída do seu último habitante. O abandono ter-se-á devido em parte à emigração para os EUA, e em parte à mudança de muitos habitantes para o Mosteiro, onde a electricidade e a água canalizada em casa haviam já chegado, coisa que não chegou nunca a acontecer neste lugar, no caso da electricidade, e que só aconteceu tarde e parcialmente no caso da água canalizada. Desde então, a Caldeira entrou em degradação, estando hoje arruinadas quase todas as suas edificações.

Fachada da Casa da Gueixa
A fachada da Casa da Gueixa.

Visitar a Caldeira é visitar um local mágico, onde se sonha em silêncio. As suas casas estão viradas para o interior do vale, para a pequena Ribeira do Barreiro, que serpenteia entre as casas e acaba por desaguar na Ribeira da Caldeira. Esta pequena ribeira, ou melhor, as duas pequenas ribeiras que se unem junto às casas que estão mais a montante, no baixio, são, em conjunto com a configuração do vale e com a inserção na caldeira vulcânica, elementos fundamentais de organização de todo o espaço e de todas as suas vistas: o ruído das ribeiras, pautado pelo sussurrar das folhas das árvores e amplificado pelo vale, que nos isola de ruídos exteriores, são constantes. O baixio da Caldeira é um dos pontos mais arborizados da caldeira, se se descontarem algumas monótonas plantações da inevitável criptoméria. Plátanos e álamos, bem como algumas árvores autóctones e endémicas, formam uma doce sequência ripícola entre e em torno das casas. Assim, casas e palheiros, ribeiras e árvores, no seu vale dentro da caldeira, formam um conjunto harmonioso, que evoca sentimentos de calma, paz e contemplação.

Fachadas das Casas do Verde e dos Figos Maduros
As fachadas das Casas do Verde e dos Figos Maduros.

A Caldeira consiste num núcleo central de ruínas, casas e palheiros, bem como em algumas casas e palheiros mais afastados. Todas as construções pré-existentes são exemplares muito interessantes da arquitectura popular dos Açores e das Flores, em particular, datando algumas pelo menos do século XIX, embora seja possível que tenham origens mais remotas, dado que a localidade foi descrita desde pelo menos 1814, data em que foi dada como tendo cinco fogos e 20 almas. Não há, na Caldeira, qualquer construção recente que descaracterize o conjunto, que permanece tal como se encontrava há 30 anos, quando foi abandonada. As casas e os palheiros têm estruturas e implantações muito variadas, pelo que o seu conjunto tem, enquanto património histórico e urbanístico, um valor muito superior ao já grande valor de qualquer uma das suas construções em particular.

Projecto

Interior da Casa dos Maroiços
O interior da Casa dos Maroiços.

Entrar na Caldeira, usualmente após uma caminhada pelos velhos caminhos e canadas das freguesias do Mosteiro e da Fajãzinha, é como entrar num sonho. É esse sonho que o projecto pretende materializar, recuperando as casas e palheiros, e contribuindo para a valorização dos espaços públicos, de forma a abrir a Caldeira aos visitantes.

Interior da Casa das Figueiras
O interior da Casa das Figueiras.

O projecto Calmos consiste na criação de um empreendimento de Turismo em Espaço Rural (TER) de alta qualidade e conforto. O núcleo deste empreendimento serão 10 edificações resultantes da recuperação de exemplares típicos da arquitectura popular dos Açores, e em particular das Flores, nas quais serão disponibilizadas 14 unidades de alojamento, que serão pequenas casas, 13 delas com quarto e uma delas com dois quartos. Para além dos espaços comuns / de apoio necessários para um projecto com esta natureza, o empreendimento incluirá uma recepção, um bar e espaço para refeições, que inicialmente servirá apenas pequenos-almoços e refeições ligeiras, uma piscina e um estacionamento privativo.

Interior da Casa das Flores
O interior da Casa das Flores.

A autenticidade do Calmos é crucial. Será por isso dado ênfase ao património, à cultura, à história e às tradições dos Açores, das Flores e em particular da Caldeira. É intenção do projecto, por isso, divulgar património, cultura, história e tradições, tornando-as parte da experiência dos visitantes. É também intenção do projecto recorrer sempre à toponímia autêntica e à terminologia regional específica (e.g., casa-de-alto-e-baixo8Uma casa-de-alto-e-baixo é uma casa com dois pisos, sendo o piso inferior usualmente a loja, para animais ou palamenta agrícola., casa em osso9Uma casa em osso é uma casa não rebocada, e por isso com a pedra à vista., estaleiro10Um estaleiro é um espigueiro., lugar11Nos Açores não se usa a palavra «aldeia». As pequenas povoações designam-se lugares., canada12Uma canada é um caminho, usualmente bordejado por muros ou sebes, que se designam por «bardos»., pulo13Um pulo é uma cascata ou queda de água., etc.). Um outro aspecto importante da cultura e tradições regionais e locais passa pela gastronomia e pelos produtos regionais que serão oferecidos ao visitante, no caso da gastronomia incluindo também, numa extensão futura, um restaurante.

Interior da Casa da Gueixa
O interior da Casa da Gueixa.

A autenticidade passa também, e logo em primeiro lugar, como é evidente, pela arquitectura. Não se pretende criar um museu de casas reconstruídas de acordo com um qualquer arquétipo da arquitectura popular açoriana ou florentina. O objectivo não é criar um pastiche do que imaginamos ter sido a Caldeira e a sua vida. O passado é passado, e é necessário lembrá-lo e valorizá-lo, mas não recriá-lo.

Sala de refeições no edifício da recepção
A sala de refeições no edifício da recepção.

A recuperação será feita preservando e reforçando o espírito do local, que em alguns aspectos evoca a magia das ruínas falsas de alguns jardins ingleses dos séculos XVIIII e XIX (e.g., Monserrate, em Sintra). Ou seja, não se pretende reconstruir, excepto onde a reconstrução for possível e apropriada, sobretudo quando os materiais ainda se encontram no local, mas sobretudo consolidar as ruínas existentes, tornando-as habitáveis, e assumindo sem complexos um ponto de vista arquitectónico totalmente contemporâneo.

Sala de estar no edifício da recepção
A sala de estar no edifício da recepção.

Vista a partir do exterior das casas, a Caldeira, que será pouco visível para quem passa na Estrada da Caldeira, especialmente depois de reposto algum do coberto vegetal, terá a magia minimalista de uma aldeia abandonada, fazendo-nos parar e meditar, e convidando-nos a explorar calmamente o lugar e a encontrar os segredos que imaginamos que as suas casas escondem.

Vista sobre as casas
Uma vista sobre as casas mais a poente.

Os interiores contrastarão fortemente com o exterior: o conforto contemporâneo, a luz e o ambiente tépido dos interiores, entrevisto através das janelas, sobretudo ao anoitecer, convidar-nos-ão a entrar. As janelas serão, assim, uma fronteira entre dois mundos totalmente distintos, formando belos quadros. Do interior, as janelas pintarão trechos do exterior mágico. Do exterior, serão rasgos escuros para um interior misterioso, que se iluminará ao crepúsculo para pintar cenas de interiores de conforto e luz.

Centro da Caldeira com estaleiro
O centro da Caldeira com um estaleiro.

Para atingir estes objectivos, foi seleccionada uma equipa de renome, liderada pelo gabinete de arquitectura SAMI Arquitectos, com provas dadas nos Açores e ganhadora de vários prémios internacionais, sendo de destacar o 2015 AADIPA European Award for Architectural Heritage Intervention, que venceram (ex aequo com outro atelier) na categoria Intervention in Built Heritage com o seu projecto Casa E/C, que, segundo o júri, «establishes an intense dialogue between differing moments, rehabilitating a ruined building with materials that synchronously evolve through time, reactivating the sense of place in relation to the landscape». Para a arquitectura paisagista foi seleccionado o arquitecto paisagista Victor Beiramar Diniz, que já colaborou com o gabinete SAMI Arquitectos no seu projecto Casa C/Z, e que desenvolveu já um conjunto vasto de projectos em colaboração com os mais prestigiados gabinetes de arquitectura.

Casa da Ganhoa vista através de estaleiro
A Casa da Ganhoa vista através de um estaleiro.

Para além de preservar e reforçar a magia do lugar, o projecto deverá sustentável económica, social e ambientalmente. A sustentabilidade económica será garantida por uma oferta que apelará ao segmento médio-alto e alto do turismo, tanto através da magia do lugar e do conforto das acomodações, como através da disponibilização de um conjunto diversificado de experiências de várias naturezas (sensoriais, didáticas, culturais, etc.). A sustentabilidade social será assegurada através da ligação à economia local, de natureza essencialmente agrícola, fornecendo aos hóspedes um conjunto diversificado de produtos e experiências locais. A sustentabilidade ambiental, que é provavelmente aquela com maior impacto no projecto de arquitectura, será garantida tanto durante a consolidação e construção, como durante a vida do empreendimento, através de um impacto ambiental reduzido (poupança energética, utilização de energias renováveis, etc.).

Terceiro

Estaleiro entre Casa das Levadas e Casa das Figueiras
Os pés de um estaleiro entre a Casa das Levadas e a Casa das Figueiras.

Estas casas onde a sabedoria dos arquitectos nada fez
e os caminhos de corção nos quais as pedras
são, mais que pedras, a força
de as ter trazido e plantado
sob os passos futuros;

e estas paredes dividindo,
contendo,
sobre o corpo do chão,
cerrados e courelas

e belgas trepando
– duras cordas de cinza –
pelos flancos dos outeiros até onde
permite o vento uma qualquer
utilidade vegetal;

Álamo ao pôr-do-sol
Um álamo ao pôr-do-sol.

estas terras
revolvidas,
minadas,
com maroiços nas margens e moledos esparsos;

estas árvores,
mais velhas que a memória
dos mais velhos dos velhos:
laranjeiras disformes,
figueiras torcidas
alastrando, subindo;

e os poços,
as levadas,
as pontes,

Vista geral da Caldeira
Uma vista geral da Caldeira.

ISTO TUDO!
flores de diligência e força
com raízes de tino,

ei-la, é a nossa
história.

Que não foi escrita
– nomes de heróis –
nos compêndios.

Grande de mais para palavras mortas.

Pedro da Silveira, Fui ao Mar Buscar Laranjas: Poesia Reunida, ed. Urbano Bettencourt, 1.a ed., Poesia 1 (Angra do Heroísmo, Terceira, Açores, Portugal: Instituto Açoriano de Cultura, 2019), 138–39.

Glossário

  • Baixio – Um pequeno vale de aluvião.
  • Bardo – Uma sebe para protecção do vento.
  • Canada – Um caminho, usualmente bordejado por muros ou sebes (que se designam por «bardos»).
  • Caldeira – Uma cratera vulcânica de colapso. A palavra «caldeira» parece ter começado a usar-se para designar formações geológicas justamente na Macaronésia. Terá sido esta palavra a ser adoptada, mais tarde, como parte da terminologia científica geológica. Curiosamente, mesmo quando cheias de água, nas Flores não se lhes chama lagoas: continua a chamar-se-lhes caldeiras.
  • Casa-de-alto-e-baixo – Uma casa com dois pisos, sendo o piso inferior usualmente a loja, para animais ou palamenta agrícola.
  • Cerrado – Um pequeno terreno agrícola, usualmente cercado por uma sebe ou «bardo».
  • Corção – Um carro de bois sem rodas, para transportar cargas pesadas ou para se deslocar em caminho ou terreno incompatível com rodas.
  • Em osso – Uma casa ou uma parede exterior em osso é uma casa ou parede não rebocada, e por isso com a pedra à vista.
  • Estaleiro – Um espigueiro.
  • Fajã – Uma área plana de terreno resultante usualmente de um desabamento de terras ou quebrada. As fajãs estão usualmente junto ao mar, mas há também fajãs de altitude.
  • Ganhoa – Uma gaivota.
  • Gueixa – Uma vitela. Um vitelo será «gueixo».
  • Lugar – Uma aldeia. Nos Açores não se usa a palavra «aldeia».
  • Maroiço – Um monte de pedras acumuladas ao espedregar um terreno agrícola.
  • Pulo – Uma cascata ou uma queda de água.
  • Quebrada – Um desabamento de terra ou o seu resultado.

References
1 Pedro da Silveira, Fui ao Mar Buscar Laranjas: Poesia Reunida, ed. Urbano Bettencourt, 1.a ed., Poesia 1 (Angra do Heroísmo, Terceira, Açores, Portugal: Instituto Açoriano de Cultura, 2019), 138–39.
2 Nos Açores não se usa a palavra «aldeia». Uma pequena povoação designa-se por lugar.
3 A palavra «caldeira» parece ter começado a usar-se para designar formações geológicas justamente na Macaronésia. Terá sido esta palavra a ser adoptada, mais tarde, como parte da terminologia científica geológica. Curiosamente, mesmo quando cheias de água, nas Flores não se lhes chama lagoas: continua a chamar-se-lhes caldeiras.
4 Um baixio é um pequeno vale de aluvião.
5 Um pulo é uma cascata ou uma queda de água.
6 Uma fajã é uma área plana de terreno resultante usualmente de um desabamento de terras ou quebrada. As fajãs estão usualmente junto ao mar, mas há fajãs de altitude.
7 Uma quebrada é um desabamento de terra ou o seu resultado.
8 Uma casa-de-alto-e-baixo é uma casa com dois pisos, sendo o piso inferior usualmente a loja, para animais ou palamenta agrícola.
9 Uma casa em osso é uma casa não rebocada, e por isso com a pedra à vista.
10 Um estaleiro é um espigueiro.
11 Nos Açores não se usa a palavra «aldeia». As pequenas povoações designam-se lugares.
12 Uma canada é um caminho, usualmente bordejado por muros ou sebes, que se designam por «bardos».
13 Um pulo é uma cascata ou queda de água.