Porta da casa 6
Uma porta da casa 6.

Calmos – A Caldeira do Mosteiro, ou simplesmente a Caldeira, é um lugar da freguesia do Mosteiro, Concelho das Lajes das Flores, constituído por cerca de uma dezena de casas e por alguns palheiros. A Caldeira insere-se numa caldeira vulcânica que é conhecida localmente pelo mesmo nome. Mais precisamente, a Caldeira situa-se na parede exterior da caldeira vulcânica, no «baixio» (i.e., no vale) que rasga esta parede para deixar a Ribeira da Caldeira, depois de engrossada por duas outras ribeiras que serpenteiam entre as casas da Caldeira, sai para o mar, onde chega após uma sucessão de pequenas cascatas e depois de passar pela pequena Fajã de Lagoarda.

Vista das casas 7, 8 e 11
Uma vista das casas 7, 8 e 11 com a ribeira e os plátanos pelo meio.

A Caldeira foi abandonada em 1992, com a saída do seu último habitante. O abandono ter-se-á devido em parte à emigração para os EUA, e em parte ao facto de a electricidade nunca ter chegado ao local. Desde então, a Caldeira entrou em degradação, estando hoje arruinadas quase todas as suas edificações.

Visitar a Caldeira é visitar um local mágico, onde se sonha em silêncio. As suas casas estão viradas para o interior do vale, para a pequena ribeira que acaba por desaguar na Ribeira da Caldeira. Esta pequena ribeira, ou melhor, as duas pequenas ribeiras que se unem junto às casas mais a montante do «baixio», são, em conjunto com a configuração do vale e com a inserção na caldeira vulcânica, elementos fundamentais de organização de todo o espaço e de todas as suas vistas: o ruído das ribeiras, pautado pelo sussurrar das folhas das árvores e amplificado pelo vale, que nos isola de ruídos exteriores, é uma constante. O baixio da Caldeira é um dos pontos mais arborizados da caldeira, se se descontarem algumas monótonas plantações da inevitável criptoméria. Plátanos e álamos, bem como algumas árvores autóctones, formam uma doce sequência ripícola entre e em torno das casas. Assim, casas e palheiros, ribeiras e árvores, no seu vale dentro da caldeira, formam um conjunto harmonioso, que evocam sentimentos de calma, paz e contemplação.

Janela da casa 1
Uma janela da casa 1.

Entrar na Caldeira, usualmente após uma caminhada pelas velhas canadas da freguesia do Mosteiro, é como entrar num sonho. É esse sonho que queremos materializar, recuperando as casas e palheiros, e contribuindo para a valorização dos espaços públicos, de forma a abrir a Caldeira aos visitantes.

A recuperação deverá ser feita preservando, ou mesmo reforçando, o espírito do local, que em alguns aspectos evoca a magia das ruínas falsas de alguns jardins ingleses dos séculos XVIIII e XIX (e.g., Monserrate, em Sintra). Ou seja, não se pretende reconstruir, mas sim consolidar as ruínas existentes, tornando-as habitáveis, e assumindo sem complexos um ponto de vista arquitectónico totalmente contemporâneo.

Visto a partir do exterior das casas, o empreendimento, que será quase invisível para quem passa na estrada, deve ter a magia minimalista de uma aldeia abandonada, fazendo-nos a parar e meditar, e convidando-nos a explorar calmamente o lugar e a encontrar os segredos que imaginamos que as suas casas escondem.

Fachada da casa 8
A fachada da casa 8.

Os interiores devem contrastar fortemente com o exterior: o conforto contemporâneo, a luz e o ambiente tépido dos interiores, entrevisto através das janelas, sobretudo ao anoitecer, devem convidar-nos a entrar. As janelas serão, assim, uma fronteira entre dois mundos totalmente distintos, formando belos quadros. Do interior, as janelas pintarão trechos do exterior mágico. Do exterior, serão rasgos escuros para um interior misterioso, que se iluminará ao crepúsculo para pintar cenas de interiores de conforto e luz.

Fachadas das casas 7 e 11
As fachadas das casas 7 e 11.

Para além de preservar e reforçar a magia do lugar, o projecto deverá sustentável económica, social e ambientalmente. A sustentabilidade económica será garantida por uma oferta que apelará ao segmento médio-alto e alto do turismo, tanto através da magia do lugar e do conforto das acomodações, como através da disponibilização de um conjunto diversificado de experiências de várias naturezas (sensoriais, didáticas, culturais, etc.). A sustentabilidade social será assegurada através da ligação à economia local, de natureza essencialmente agrícola, fornecendo aos hóspedes um conjunto diversificado de produtos e experiências locais. A sustentabilidade ambiental, que é provavelmente aquela com maior impacto no projecto de arquitectura, será garantida tanto durante a consolidação e construção, que deverão usar tanto quanto possível materiais e mão de obra locais, como durante a vida do empreendimento, através de um impacto ambiental reduzido (poupança energética, utilização de energias renováveis, tratamento adequado de resíduos sólidos e águas residuais, etc.).